Oi leitores queridos! Andei um pouco sumida porque estava com muitos afazeres profissionais e domésticos! Fiquei até com um torcicolo por causa disso! Mas agora já estou melhor. A música citada no título é "Paula e Bebeto" de Caetano Veloso e Milton Nascimento. Achei que essa estrofe encaixou bem no tema que vou abordar hoje. Estou lendo o livro "O Primo Basílio" de Eça de Queiroz. Há alguns anos, quer dizer há exatamente 22 anos (fiquei com medo agora) a Globo fez uma minissérie baseada no livro. Eu lembro que eu era pirralha, tinha 11 anos, mas como estudava à tarde, acabava dormindo mais tarde que os pré-adolescentes que estudavam de manhã ( lembro muito bem que com essa idade eu ficava p. da vida quando me chamavam de criança, eu era uma pré-adolescente!!!rsrsrsrs Que metidinha!).
Assisti a minissérie e lembro muito pouco (acho já comentei com vcs da minha memória problemática) mas lembro que a Giulia Gam era a Luisa, a mocinha romântica, e a Marilia Pêra, a Juliana, uma das empregadas da casa, amarga, invejosa, com poucos escrúpulos e que só se vestia de preto (ou com roupas escuras).
A história se passa em Lisboa e foi escrita em 1878, mas é incrível como poderia se passar nos dias de hoje. O livro tem umas palavras que não se usam mais hoje em dia, que só pegando o dicionário mesmo pra saber o que é, e isso quase me fez desistir no início. Mas persisti e não me arrependi. De acordo com a introdução da edição que estou lendo (que é de uma dessas coleções de clássicos da Abril), com esse livro, o autor "ataca as falsas bases da moralidade lisboeta." Então tá.
Pra quem não conhece a história, o Basílio do título é primo e ex-namorado de adolescência da Luisa. Ela é casada com Jorge e parece levar uma vida tranqüila com ele: o ama, é amada por ele, vivem numa casa confortável, recebem os amigos de vez em quando, etc. São uma típica família burguesa do século XIX na Europa. Até que um dia, Basílio volta à Lisboa e começa a se mostrar novamente interessado por Luisa. Ele é atraente, culto, viajado, sedutor...Ela resiste, até um dia que cede a tentação. E aí a história se desenrola, tendo Juliana como vilã principal. Não vou contar mais, até porque não acabei de ler ainda (mesmo assim não ia contar pra não perder a graça se alguém for ler; eu particularmente ODEIO quando me contam o final de filmes, por exemplo).
Li essa passagem e tive vontade de dividir com vcs e escrever um pouco sobre o tema. Neste momento do livro, o furor da paixão de Luisa e Basílio, dá uma aplainada, eles estão juntos há 3 meses, se vendo praticamente todo dia e ela começa a se questionar sobre os seus sentimentos. Leopoldina, que é citada abaixo, é uma amiga dela, que tem amantes seqüenciais:
"Mas que sentia de extraordinário
agora? Bom Deus, começava a estar menos comovida ao pé do seu amante, do que ao pé do seu marido! Um beijo de Jorge perturbava-a mais, e viviam juntos havia 3 anos! Nunca se secara ao pé de Jorge, nunca! E secava-se positivamente ao pé de Basílio! Basílio, no fim, o que se tornara para ela? Era como um marido pouco amado, que ia amar fora de casa! Mas então, valia a pena?...
Onde estava o defeito? No amor mesmo, talvez! Porque enfim, ela e Basílio estavam nas condições melhores para obterem uma felicidade excepcional: eram novos, cercava-os o mistério, excitava-os a dificuldade...Por que era então que quase bocejavam?
É que o amor é essencialmente perecível, e na hora em que nasce, começa a morrer.
Só os começos são bons. Há então um delírio, um entusiasmo, um bocadinho do céu. Mas depois!...Seria pois necessário estar sempre a
começar, para poder sempre sentir?...Era o que fazia Leopoldina. E aparecia-lhe então nitidamente a explicação daquela existência de Leopoldina, inconstante, tomando um amante, conservando-o uma semana, abandonando-o como um limão espremido, e renovando assim constantemente a flor da sensação! - E pela lógica tortuosa dos amores ilegítimos, o seu primeiro amante fazia-a vagamente pensar no segundo!"
OBS: Grifo em itálico do autor, grifo em negrito, meu.
"É que o amor é essencialmente perecível, e na hora em que nasce, começa a morrer. Só os começos são bons." Essas duas frases me chamaram bastante a atenção. Primeiramente, achei que o autor ao dizer amor, quis dizer paixão, pois o que ele descreve é o nítido processo de se apaixonar. Não sei se todo mundo faz essa divisão. Pode até ser que tudo seja amor, sim, mas então existem tipo de amores diferentes, ou o amor se transforma com o tempo, ou as duas coisas coexistam. Ai, sei lá, só sei que arranjei um tema difícil pra escrever. No final das contas, a nomenclatura é algo muito pessoal.
Por um lado, concordo que o amor (de qualquer tipo) seja perecível sim. Se a gente não cuidar, dá zebra, definha. Mas essa é uma outra interpretação que estou fazendo em cima da frase do autor. Acho que a personagem está se referindo neste ponto ao tipo de amor que eu definirei aqui como paixão, tanto que sua próxima frase é a seguinte: "só os começos são bons". Realmente o começo de uma paixão (seja por um homem, uma mulher, um filho, um trabalho, e tantas outras coisas mil a que estamos sujeitos de nos apaixonar) é um momento inebriante. É como ver o mundo com lentes cor-de-rosa, só vemos as partes boas das pessoas ou coisas; e, se por um acaso, nos deparamos com coisas não tão agradáveis, tratamos de maquiá-las rapidamente, jogá-las pra baixo do tapete ou fazer "ouvido de mercador". Ficamos energizados, bonitos, radiantes. O desconhecido, a novidade tem um apelo imensurável. Mesmo que traga junto uma ansiedade e um medinho...Ou medão! Rsrsrs... Acho que uma das razões para isso acontecer é que o novo traz com ele um milhão de possibilidades. É meio como se fosse aquele lance de Matemática, Progressão Geométrica? Não tenho certeza se é isso, sempre fui péssima em Matemática, mas acho que é...Ou será Aritmética? Deixa pra lá....
É como se o foco da nossa paixão trouxesse junto com ele um leque de chances para nós nos reinvertarmos, para sermos diferentes do que somos hoje, para resgatarmos a nossa mania de idealizar as coisas e as pessoas, para voltarmos a sentir de forma intensa a vida...É, se apaixonar é realmente gostoso...Mas acho que realmente as paixões tem prazo de validade. Pois chega uma hora em que o tempo e o convívio com o foco da paixão se encarregam de transformar as coisas...Na minha opinião, ou ela vira amor ou acaba. Mas existem também as paixões interrompidas, essas podem demorar uma eternidade pra ir embora ou ficar sempre sendo aquela pedra no sapato...
Ao mesmo tempo, se fizermos um contraponto com o amor, onde o desconhecido já virou conhecido (mas não totalmente, é sempre preciso lembrar que falando de pessoas, bichos e plantas, pelas condição de sermos seres vivos, somos sujeitos a mudanças, transformações e comportamentos imprevisíveis dependendo das circunstâncias), o sentimento já é vivido de uma forma mais amena, sem tantos arroubos, o coração ao invés de bater aos pulos, bate sereno... É também um sentimento maravilhoso de se sentir...Cada um tem o seu valor.
Falando de relacionamentos amorosos, acho que as pessoas escolhem (mesmo que não tenham consciência disso) qual desses sentimentos querem que esteja mais presentes nas suas vidas: tem gente, como por exemplo Vinicius de Moraes, que escolhe viver sempre apaixonado; quando acaba o sentimento de paixão, parte em busca de outra, e depois outra e assim sucessivamente. E é feliz assim. Ou não. Já outras pessoas preferem que amor prepondere em suas vidas: então, aprendem a enfrentar a transição da paixão para o amor, ou já escolhem uma pessoa que amam para dividir suas vidas. Não que essas categorias sejam fixas, pelo resto da vida, acho que as pessoas podem mudar de lado em qualquer momento das suas trajetórias. Aliás, nem gosto muito de falar em categorizações, pois isso implica em dizer que as pessoas "são" (do verbo ser) , e por mais que possamos manter determinadas características por muito tempo na vida (ou até por toda ela) acho que pensar assim aprisiona, reduz e minimiza a possibilidade das pessoas deixarem de ser o que não é mais interessante, necessário nem produtivo pra elas. Gosto mais de pensar em "estados" (do verbo estar), que podem ter durações variáveis...Acho que isso limita menos...
Há um terceiro tipo, já que resolvi fazer categorias: as que querem o que tem de melhor nos dois lados: querem ter o amor e paixão nas suas vidas, ao mesmo tempo. É como se uma cereja do bolo fosse pouco, elas querem as duas cerejas dos dois bolos. Nada contra nem a favor, que fique bem claro, cada um sabe o que faz da sua vida, dos seus sentimentos e das suas relações e assume a sua responsabilidade por tudo isso. Querem o que o amor tem de bom e o que a paixão tem de bom. É uma escolha também, mas como geralmente o foco do amor é uma pessoa e o foco da paixão é outra, isso pode acabar gerando sentimentos conflitantes e conseqüências sofridas para todos os envolvidos, cedo ou tarde. Quer dizer, em todos não sei. Acredito que tenha gente que conviva bem com isso, que não fique atormentada por amar um e ser apaixonado por outro. Que ache que é assim que a vida deve ser vivida. Outros não, podem sofrer por estarem divididos. Já aqueles que se considerarem traídos ou substituídos, ao descobrir da existência de uma terceira pessoa na sua relação, podem "cair do cavalo", sofrer muito, se sentirem menosprezados, sem valor ou atrativos, etc. Outros podem acabar entendendo a situação (até esses mesmos, que acabei de citar, depois de um tempo) e resolverem continuar com a relação, porque sentem que ela vale a pena, apesar dos pesares...Entre outros tipos de reações. Não dá pra listar todos aqui, levaria uma eternidade e ainda ia esquecer algumas.
Existem também as combinações, onde todos estão de acordo com as regras do jogo, são os chamados atualmente de "relacionamentos abertos". Visualizei agora, um quarto tipo que ainda não tinha pensado: aquelas pessoas que geralmente tiveram experiências dolorosas com o amor e com a paixão e que resolvem se fechar para os dois. Geralmente, se relacionam de forma superficial, e ao mínimo alarme de surgimento de um desses dois sentimentos abandonam o barco, vão embora correndo, pra se defender e se preservar. Ufa! É, esse é um assunto que dá pano pra manga. Dá pra escrever ainda vários posts sobre ele, abordando outras facetas que eu não tenho como abordar aqui agora. As pessoas são complexas pra caramba! E os seus sentimentos e formas de se relacionar, mais ainda... E é essa complexidade e diversidade que me encanta no ser humano...Essa pode ser a simplória conclusão desse post! Um beijo e até mais!
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